| Temas
-
Amazônia
A oportunidade do imbróglio
do boi
ROBERTO SMERALDI
--------------------------------------------------------------------------
O rebanho não precisa ser cortado: ainda se torna legal, mais
rentável e agrega valor. Não parece um final feliz?
--------------------------------------------------------------------------
O BRASIL , de repente, se dá conta dos passivos do avanço
da pecuária -com seu explosivo crescimento, na Amazônia,
a partir de 2004.
Justiça, sociedade civil e supermercados reagem, e cada um anuncia
medidas em sua respectiva esfera: indenizações bilionárias,
denúncia das ligações com grifes internacionais,
sustação de compras. O Banco Mundial resolve pedir de
volta o dinheiro que havia concedido em 2006, afastando-se de riscos
financeiros e reputacionais. E ainda há bastante coisa para vir.
Saudável que isso esteja em pauta, mas, passada a atenção
midiática -necessariamente passageira-, pode se voltar à
rotina sem alternativas.
A Justiça é lenta, e a capacidade de cobrança da
sociedade civil ao longo do tempo, obviamente limitada, ainda mais quando
longe dos holofotes.
Há caminhos para aproveitarmos essa crise não apenas para
superar o problema da ilegalidade mas também para criar as condições
para que a atividade se torne mais sustentável?
Eu acho que sim, mas as condições não são
triviais. Para começar, a história ensina que, sem reconhecer
os erros, é difícil superá-los: a negação
das evidências não ajuda a trocar de página. Também
temos de entender que a tecnologia avançada é, nesse caso,
necessária, mas, sozinha, não resolve. Finalmente, temos
de garantir durabilidade e massa crítica para as soluções.
Com tais pressupostos, podemos enfrentar três desafios.
O primeiro é reduzir a pegada espacial da atividade, algo perfeitamente
possível: os 71 milhões de cabeças de gado, que
hoje ocupam 74 milhões de hectares de pastagem, podem ser abrigados
em 25
milhões de hectares, ainda com vantagens econômicas. Isso
permite recuperar a reserva legal das unidades produtivas existentes
e, assim, tirá-las da ilegalidade.
Para que isso aconteça, é preciso redirecionar o expressivo
crédito subsidiado destinado a toda a cadeia. Nem precisa de
dinheiro adicional, mas apenas usar o que já gastamos de forma
exatamente
oposta ao que se faz hoje: em vez que promover a expansão, promover
a produtividade.
O segundo desafio é estabelecer políticas de compra confiáveis:
aquelas baseadas em listas negras se revelaram um bumerangue para os
que as adotaram.
Logo que o Greenpeace expôs as ilegalidades dos fornecedores que
não faziam parte das listas dos multados ou embargados, caiu
a ficha das empresas sobre o quanto esse mecanismo pode ser traiçoeiro.
Muitos dos que estão fora das listas estão entre os mais
ilegais: eles já não tinham floresta e, portanto, não
eram objeto dos flagrantes de derrubada que os levariam para as listas.
Precisamos, assim, de listas positivas de fornecedores, algo possível
só com um sistema de certificação que, inclusive,
garanta também contra práticas como trabalho escravo,
na qual a pecuária amazônica é recordista. E isso
pode ser adotado logo: a Iniciativa Brasileira para Certificação
da Atividade Agropecuária chegou à reta final após
trêsanos de negociação.
O terceiro desafio é evitar novos investimentos para a expansão
da atividade na região. Parece óbvio, mas é algo
que só pode ser imposto pela indústria financeira e que
precisa de um compromisso claro por sua parte.
Tudo isso poderá embasar os futuros termos de ajustamento de
conduta a serem assinados com o Ministério Público pelos
diversos atores da cadeia. Mas os prazos para sua implementação
são necessariamente longos, de pelo menos uma década.
Eis que precisa de um avalizador com capacidade financeira, um pé
nos frigoríficos e outro na fazenda: trata-se do BNDES. Coincidentemente,
é o mesmo que também financia grande parte da atividade
pecuária em si e, portanto, pode amarrar o crédito aos
critérios das políticas de compra da indústria,
da qual é sócio.
Esse avalizador não aparenta nenhum apetite para se envolver
na mudança. Entretanto, acabou se tornando corresponsável
judicialmente com os frigoríficos e, portanto, à diferença
do Banco Mundial, não temcomo se despedir.
O BNDES pode viabilizar e garantir a mudança poupando o pagamento
de enormes indenizações ao setor no qual se engajou com
certa desenvoltura e a si mesmo.
O rebanho não precisa ser cortado: ainda se torna legal, mais
rentável e agrega valor. Nos 50 milhões de hectares a
recuperar, geram-se bilionários créditos de carbono e
muitos empregos. Não parece um final feliz?
--------------------------------------------------------------------------------
ROBERTO SMERALDI, 49, jornalista, é diretor da Oscip Amigos da
Terra - Amazônia Brasileira.
Volta |